Cartas Pedagógicas

Em tempos globalizantes, de comunicação cada vez mais veloz, telegráfica e sintética, do mundo virtual e dos e-mails, a Rede de Educação Cidadã resolveu apostar na retomada das cartas como uma forma de estabelecer um diálogo entre as diferentes realidades do país.

Transpor as vivências para o mundo da linguagem escrita não é tarefa fácil, conforme relatamos(as) educadores(as) de Goiás: “é difícil expremer nossas vivências (…) e passar do vivenciado, caloroso das cores, dos cheiros e sabores à escrita formal”. Contudo, este exercício foi vivenciado pelos 27 Estados da Federação em preparação ao 9º Encontro Nacional da Rede de Educação Cidadã, realizado em julho de 2008.As cartas foram a fonte de onde se extraiu o diagnóstico dos limites,
avanços e desafios das experiências.

Inseridas nos Círculos de Cultura no 9º Encontro Nacional da recid, as “Cartas Pedagógicas” retomam a experiência do próprio Paulo Freire que, em seu tempo, também escreveu Cartas Pedagógicas publicadas nos livros “Cartas à Guiné-Bissau”, “Cartas à Cristina” e “Pedagogia da Indignação”.

A intenção das cartas pedagógicas, como diz Freire, é a de oferecer aos leitores(as) uma visão dinâmica das atividades que estamos desenvolvendo e a reflexão de alguns problemas  que elas suscitam. Como o fez o próprio Freire em suas cartas, conforme observa-se abaixo:
 

Se alguém (…) me perguntar, com irônico sorriso, se acho que, para mudar o Brasil, basta que nos entreguemos ao cansaço

de afirmar que mudar é possível e que os seres humanos não são puros expectadores, mas atores também da história,

direi que não. Mas direi também que mudar implica saber que fazê-lo é possível”,

(Segunda Carta — Do Direito e do Dever de Mudar o Mundo, in Pedagogia da Indignação, Unesp-2000, São Paulo).

Por outro lado, a tradição de escrever missivas remonta a tempos imemorias. O apóstolo Paulo estabeleceu um diálogo com as primeiras comunidades cristãs por meio de suas epístolas; Intelectuais, autores e revolucionários se entregaram a esta prática com apaixonada devoção: Karl Marx e Friedrich Engels, Che Guevara e Fidel Castro, Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre.

Por meio das cartas de Frei Betto ficamos sabendo o que se passou nos porões da ditadura no Brasil. Elas, escritas por Olga Benário, foram portadoras do horror do holocausto e do nazismo de Hitler na Alemanha. É por meio delas que nos deparamos com sentimentos mais profundos dos apaixonados. Aliás só apaixonados, conforme nos mostrou o poeta português Fernando Pessoa, escrevem cartas de amor. E, segundo ele, só escreve cartas de amor àqueles(as) que não têm medo de expor o quepensam, o que sentem, o que amam…

As cartas pedagógicas de Paulo Freire recolocam a educação no espaço do coloquial e do afetivo. As Cartas Pedagógicas da Rede de Educação Cidadã querem fazer este mesmo movimento e o fazem com o relato de experiências vividas no Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste do país.

O discurso das cartas que seguem se situam ora no campo da descrição ora no campo poético e simbólico e revelam uma prática social na qual se impregnam o masculino e o feminino; na qual se envolvem e são envolvidos diferentes sujeitos e atores políticos; uma prática que se incultura nas diferentes realidades; e nutre-se da mística da esperança e da mudança.

Ora escritas na primeira, ora na terceira pessoa, emerge destas um narrador coletivo, que fala de um fazer que vai se tecendo de diferentes saberes, por homens e mulheres, orientados por uma busca comum: a retomada da educação popular como opção metodológica, a vivência dos princípios e diretrizes de seu Projeto Político Pedagógico e a utopia da construção do Projeto Popular para o Brasil que, como diz a Carta do Rio, “só poderá nascer do coração do povo brasileiro”.

Embora a Rede pareça pequena frente a tão grandes desafios e a realidade que vai desumanizando tudo e as pessoas, frente à “epidemia” do capital a recid vai propondo a “terapia” dos cantos, dos abraços, dos olhares, da mística, dos sorrisos, do conhecimento, da informação, da troca de experiências, da aprendizagem e da autogestão, como nos comunicam os educadores do Paraná.

Para facilitar a leitura, as Cartas Pedagógicas da recid estão organizadas por macrorregiões brasileiras e por ordem alfabética. Começamos, contudo, com a carta de Rondônia, Estado que após um acidente de trânsito está transformado a dor em esperança e em novas ações.

Com este exercício, a Rede espera não só retomar esta prática que está caindo no esquecimento, mas sobretudo estimular a troca de preocupações e reflexões que permeiam a prática dos educadores(as) populares do Brasil. Tomara que essa publicação não se esgote nela mesma, mas motive a todos a continuar este diálogo, escrevendo cartas porque, como nos diz o poeta: “só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”.

Boa leitura!

Cartas Pedagógicas_PDF

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