A cor do Holocausto

Hoje, ao ouvir a palavra Holocausto todos se reportam ao sacrifício dos judeus na Segunda Guerra, mas em verdade há muito mais a ser considerado.

A origem da palavra é do grego, mas seu sentido ainda mais remoto, posto que religioso. Cremação de corpos seria a tradução, mas não necessariamente imolação de animais, pois aos deuses também se sacrificava corpos vegetais.

Só no século XIX a palavra passou a designar massacres humanos. E, no seguinte, inscrita com “H” maiúsculo, os extermínios promovidos pelos nazistas.

Hoje, ao ouvir a palavra todos se reportam ao sacrifício dos judeus na Segunda Guerra, mas em verdade há muito mais a ser considerado.

Primeiro que a palavra “judeu” não designa uma etnia, mas sim uma religião. A etnia é semita, como a de qualquer árabe, com a diferença de que após milenares movimentos migratórios de tão miscigenados os antigos hebreus são os que menos preservam os códigos genéticos semitas.

O que não quer dizer nada, claro. Tampouco é de causar espanto o judeus também terem praticado inúmeros holocaustos, conforme se denota na Bíblia: “E porás o altar do holocausto diante da porta do tabernáculo da tenda da revelação” (Êxodo, capítulo 40, versículo 6).

Não eram sacrifícios humanos, mas o que realmente causa estranheza são algumas outras omissões sobre o chamado “Holocausto Judeu” como, por exemplo, a de que não foram as únicas vítimas. Também se incluíam grupos de homossexuais, ciganos, eslavos, polacos, russos, deficientes mentais e físicos, Testemunhas de Jeová, mórmons e sindicalistas.

Mais motivos para nossa indignação à barbárie nazista que tanto nos comove sempre que deparamos com aquelas imagens horripilantes, constantemente expostas para jamais tornarmos a permitir a repetição de tão repulsivo espetáculo. Afinal, somos uma civilização!

Não apenas uma civilização como tantas outras da história, mas a civilização ocidental, de origem caucasiana. Tão brancos quantos os semitas, ou melhor, os judeus.

E como brancos e ocidentais nos distinguimos também por nossa orientação religiosa, reconhecendo que todos os seres humanos são iguais perante nosso Deus. Por sinal, um Deus concebido pelos hebreus, portanto branco como nós.

Mas o mentor do igualitarismo que assumimos como cristãos, foi Jesus. Os semitas hebreus não dão importância alguma a Jesus, mas nem por isso deixamos de considerá-los nossos iguais e nos causa asco a reprodução daquelas cenas do Holocausto. Se não experimentamos a mesma sensação pelos demais grupos é apenas por não serem tão divulgados. Como também pouco se divulga o Holocausto dos Palestinos pelos judeus sionistas.

Além de brancos como nós, muitos palestinos são cristãos, como o eram aqueles demais exterminados pelo nazismo tão pouco divulgados.

Se o fossem, nos causariam a mesma comoção sentida pelo Holocausto Judeu. Inclusive pelos ciganos, apesar de não tão brancos quanto nós e adoradores de outros deuses. Como exemplo mundial de civilização evoluída nos comovemos e como cristãos pregamos a compaixão entre os homens.

Mas vamos aos números para dimensionarmos melhor o horror do Holocausto. Além dos 6 milhões de judeus, foram mortos também 17 milhões de soviéticos (9,5 milhões civis), 5,5 milhões de alemães (3 milhões civis), 4 milhões de poloneses (3 milhões civis), 2 milhões de chineses, 1,6 milhão de iugoslavos, 1,5 milhão de japoneses, 535 mil franceses (3,3 mil civis), 450 mil italianos (150 mil civis) 396 mil ingleses e 292 mil soldados estadunidenses.

Como não nos indignarmos com estes números? Como admitir que em nossa cultura ocidental e cristã, isso tenha ocorrido ao longo dos 6 piores anos de nossa história?

Terão sido mesmo os seis piores anos da história de nossa civilização? Acompanhemos esse trecho de uma descrição do médico inglês Robert Clarke;

“Grande número de indivíduos… chegou ao hospital tão deploravelmente emagrecido que a pele parece estar inteiramente retesada e colada ao esqueleto. A expressão do rosto indica sofrimento moral e físico da mais profunda e agonizante natureza. Ocasionalmente, entre os grupos recém-chegados, a expressão mais completa de sofrimento se encontra expressa na melancolia ou na loucura delirante. As feições secas encolhidas e magras são ressaltadas por olhos fundos, negros e cintilantes. A barriga é como se estivesse presa às costas, enquanto o osso das cadeiras se projeta e provoca a dilaceração da pele suja e úlceras fagedênicas. A mão e os dedos magros parecem excessivamente alongados pelo grande e negligente crescimento das unhas que em tais casos parecem garras. A magreza e a miserabilidade da figura são aumentadas em muitos casos pelas secreções multicores de que o corpo está coberto. As pernas recusam a cumprir suas funções e suportam com dificuldade o corpo emagrecido, cambaleante e debilitado. Muitos deles sofrem de ulcerações extensas e gangrenosas situadas nas extremidades, frequentemente despregando a parte mole dos ossos, os quais, tornando-se decadentes, são esfoliados.”

Robert Clarke não testemunhou as vítimas dos campos de extermínio nazista ao fim da Segunda Guerra Mundial. Ele viveu muito antes e esse relato consta em ”Sierra Leone. A description of the Manners and Customs of the Liberated Africans; with observation upon the National History of the Colonyand a Notice of the Native Tribes”

O que o médico Robert Clarke relata aí é a situação de sobreviventes dos navios negreiros que cruzaram o Atlântico durante 4 séculos. Todos os diários de bordo e registros alfandegários denunciam que nem a metade da carga humana alcançava o destino em companhia de seus apreensores.

Talvez tenha ocorrido no Brasil o último descarregamento dessa carga. Deu-se na localidade conhecida como Saco das Bananas, no município de Ubatuba, estado de São Paulo. Clandestinamente, pois então já se estava no início do Século XX.

Não há registros do número de mortos em terra ou embarcados durante os 4 séculos do Holocausto Negro promovido por nossa civilização branca, ocidental e cristã.

Raul Longo é jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis e é colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Pouso Longo”.

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